sábado, 22 de maio de 2010

MANUAL da sapatão [7]

As Sapas e as Palavras


Chegamos até este ponto de nossa trajetória e nem nos atentamos bem aos nossos nomes, verdade. Usei vários dos mais comuns. Lésbica, sapatão, sapa, sapata, bolacha, dyke (sapatão em inglês), que é tudo a mesma coisa. Tem aqueles que são mais regionais, ou para determinadas ocasiões. Tipo chupa-charque. Ou racha. Racha, de rachada, é como os gays de guetos nos chamam, e não precisam ser lésbicas, podem ser apenas mulheres. Mas quem começou com toda essa história de nome, foi nossa até então esquecida Safo de Lesbos.


Uma mulher da Grécia Antiga (durante o século VII a. C.) que tinha certo prestígio social e se envolvia com política. Tinha uma escola para moças, onde lecionaria poesia, música e dança. Mas Safo falou demais. Sua poesia, sim, parecia fazer sucesso, e falava sobre relações entre mulheres de amor e paixão, com toques de erotismo. Falou tanto, que foi exilada. Foi nossa primeira mártir, pelo visto. Sua história marcou tanto que ficou seu nome a nos denominar. O gentílico para mulheres da ilha de Lesbos é “lésbica”. Hoje pouco sobrou da poesia sáfica, e sua história é controversa.


Estes fatos nos remetem a um certo setor da vida sapatônica. A expressão da sapatisse com o mundo externo. Então? Vamos lá? Existem algumas formas de agir quanto a isso.


a) A lésbica no armário. Ou no closet. Essas daqui vivem uma vida dupla. Ou nem tanto, existem formas e formas de viver no armário. Às vezes é no armário só para a família, ou só para o pessoal do trabalho, ou só para o pessoal da faculdade. Há a que são cem por cento no armário e não contam para ninguém. Vivem vida dupla mesmo. São desconfiadas até no brejo. Há as que não se confessam nem para si mesma direito, essas são mais difíceis. Mas tudo é um processo. E ser sapata assumida nem sempre é possível, às vezes por questões de sobrevivência precisa-se manter segredo.


b) A sapa no aquário. Cria um ambiente artificial, não anda no brejo, não passa na lagoa, fica só no aquário. Essa pensa que está protegida dos olhares maliciosos, e que ninguém sabe.


c) A sapatão pintosa. Essa aqui só dá na cara se você olhar com jeito. Não está escondida, também nem tão óbvia. Dá para captar os sinais direitinho, e se você souber conversar e for de confiança (não homofóbico), a contará sem problemas, ou contará de mesmo jeito porque detesta ser mal compreendida. Geralmente dessa, quando você chega mais perto, percebe que ela é e está mais na cara do que pareceu à primeira vista. Ela dá na pinta. Mas você ainda precisa se dar o direito da dúvida, para não acabar se enganando.


d) A sapata bandeirosa. Do tipo que você não olha duas vezes para ter certeza. Ou pelo jeitão, pela aparência física, ou pela vida que leva, como de estilo de vida assumido a atividade em que se envolve relacionada à comunidade lésbica. Tem coisa mais bandeirosa que, por exemplo, ser celebridade e se assumir lésbica? Ser atriz e só fazer personagens lésbicas? Ser dona de um portal lésbico na internet? Ter uma boate para lésbicas? Organizar uma parada para a visibilidade lésbica? Lutar pelos direitos civis politicamente pelas lésbicas? Aparecer publicamente com sua mulher em fotos? Isso é ter uma vida livre de qualquer dúvida e agir independente do preconceito.


Tem também aquelas mulheres que nos deixam com a pulga atrás da orelha, curiosas e interessadas, quem sabe atraídas, até. Mas aí não podemos dizer que se encontra em alguma categoria, porque ainda não respondemos à pergunta: “será que ela é?”. Essas são ótimas.

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